Ultimamente ando ouvindo muitas e distintas opiniões sobre o Marxismo, sendo muitas delas provenientes de membros de partidos comunistas ou socialistas do Brasil. Contudo, sinto uma falha no discurso dessas pessoas, sinto que falta algo. Não tenho um conhecimento muito abrangente sobre as obras de Marx ou sobre as de Engels, contudo não posso deixar de notar um certo ortodoxismo para com a teoria.
Muitos dos que se dizem Marxistas, fora do campo acadêmico, normalmente têm como leitura base o que seus partidos passaram como leitura. Jornais, panfletos, reuniões, palestras são os principais veículos de informação supostamente Marxista. Por mais que esses veículos passem informações muitas vezes com certa qualidade, não deixam de servirem aos ideais de quem idealizou sua publicação. Os jornais panfletários do Partido Comunista Brasileiro e do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, por exemplo, trazem informações de caráter político de boa qualidade.
Por servirem a um propósito pré-definido, os jornais normalmente prendem-se a uma leitura já feita dos textos de caráter Marxista. Ao invés de abrirem janelas para novas visões, acabam restringindo-as ao pensamento do partido, servindo mais de dogmatização do que parte de um aprendizado (principalmente para desenvolver conceitos como "consciência de classe").
O que eu me pergunto é: todos os que pouco leram Marx ou alguns resumos são Marxistas de verdade ou apenas caricaturas e massa de manobra?
Creio que a segunda opção é a mais óbvia e correta. São caricaturas - e muito mal feitas. Explanam sobre 1917, sobre Che Guevara, gostam de usar broches de Lenin e discutem de maneira calorosa sobre uma revolução de caráter socialista. Contudo, não tem base científica para discutirem realmente o assunto, ficam no censo comum e não conseguem montar um discurso que seja convincente perante os demais.
Na verdade, ficam apenas no ativismo. O que é o ativismo? São forças políticas que não tem base teórica e agem esporadicamente, dependendo da circunstância. No geral, os grupos ativistas têm seus ideais, mas na grande maioria não apresentam uma solução concreta e plausível (vide Greenpeace).
As manifestações, por exemplo, pela passagem de onibus mais barata em São Paulo fornece um grande material de estudo. Passeatas, brigas com a polícia, palavras de ordem... tudo para abaixar a passagem que está em 3 reais. O foco que eu ponho não é a discussão do preço e sim a motivação política.
Fazendo uma pequena pesquisa, fica óbvio que a maioria dos participantes concorda que a passagem tem que baixar de preço, só que são ingênuos ao imaginar que a força política das manifestações é o único peso na balança do prefeito Kassab. Esquecem, por exemplo, que as campanhas políticas de vários partidos são financiadas por empresas de onibus (seja a nivel municipal, estadual ou federal). Não se recordam que há um débito então do prefeito para com essas empresas e, mesmo que haja um decréscimo na passagem, o próximo prefeito provavelmente aumentará o preço.
Naturalmente, o exemplo pode parecer positivista. Só que não há movimento político que se sustente sem uma boa retórica. " Não há revolução sem uma teoria", diria Lenin. Esses novos Marxistas parecem carecer do mesmo.
Falam em Revolução, falam em proletariado. Será que não enxergam que o próprio Marxismo aponta essa visão como retrógrada e ultrapassada. O discurso em questão não é quase nada diferente do que os bolcheviques discursavam em Moscou em 1917 ou Fidel Castro em Hava, em 1958.
Contudo, pelo principio da dialética de Marx, a História é dinâmica é muda conforme o tempo. O que seria a dialética? Vou explicar pelo modelo hegeliano: você tem uma tese a defender. Apoiando-se nela em debates, o normal é encontrar alguém de opinião diferente, uma antitese. Com o debate de ambas as opiniões, cria-se uma sintese, aproveitando-se das duas opiniões.
Para Marx, a História funciona assim, a História é dialética! Então como podemos sermos tão precipitados em achar que o que ocorreu no passado é a saída para o presente!? A tese do século XX era o Capitalismo Industrial. Forte, prepotente e desumado. Para combatê-lo, várias correntes socialistas e anarquistas foram criadas (entre elas o Socialismo Científico de Marx e Engels). No século XX, a Revolução Russa e as outras revoluções de caráter socialista tentaram pôr em xeque o pensamento Capitalista.
Em parte, conseguiram. Graças aos esforços dos partidos de esquerda e até mesmo da União Soviética, o Capitalismo aprendeu que quanto mais se maltrata o trabalhador, mais ele se revolta contra o sistema. Então, direitos trabalhistas, direitos salariais e vários outras reinvidicações dos trabalhadores foram atendidas, para que não explodissem mais revoluções. "Façamos a Revolução, antes que o povo a faça", diriam os getulistas em 1930.
Só que, devido a variações e problemas, o chamado Socialismo Real caiu em 1991, com o fim da União Soviética. Muitos anunciaram uma vitória sem precedentes do Capitalismo, que o Socialismo e o Marxismo estava morto.
A esquerda socialista sobrevivente ficou presa às correntes do passado enquanto o mundo sofria o fenômeno da Globalização e do Neoliberalismo. Esse Capitalismo, no entanto, aprendeu a lidar com o Socialismo e com o discurso leninista. Não é mais aquela antiga tese do século XIX\início do século XX e sim uma síntese da dialética da História.
Por isso, camaradas, creio que é hora de lermos novamente Marx. Só que lermos para nós mesmos. Está na hora de uma nova consciência, uma nova visão de mundo. Temos que ler a teoria Marxista e também temos que ler o mundo. Assim teremos condições de apresentar a essa nova tese uma antítese. E finalmente o papo de revolução, de crítica ao capitalismo tornar-se mais atual e mais convincente.